Já era primavera, o Sol entrava pela janela do quarto de Noah batendo forte em seu rosto avisando que era hora de acordar. O moço levantou-se lentamente para fechar à persiana, era domingo e só queria dormir até tarde, pensava ele sem saber que já se passava do meio-dia, mas não demorou muito para descobrir isso até o celular tocar.
- Joseph Noah, quem fala?
- Boa tarde Joseph, a mamãe já está cansada de esperar, quando é que você vai voltar pra casa?
- Boa tarde? O Sol mal nasceu e você já vem me atormentar Dana! Tenha piedade! Avise a mãe que irei aí terça, terça-feira... - Foi interrompido pela moça do outro lado da linha.
- Por que você tem de ser tão chato Nohh?! Pra sua informação são 12:34 e é melhor você vir mesmo “Dr.Estranho”!(Noah detestava quando lhe chamavam por esse “apelido”)
- Ok, ok, tchau!- Desligou o telefone bravo e olhou para o relógio em cima de sua mesa, “Porra! Como o tempo passa rápido nessa merda de lugar” pensou consigo.
Para doutores que passam noites em claro estudando casos e mais casos psiquiátricos, nunca se dorme o suficiente, sem falar nos sonhos, cada um mais maluco que o outro. Joseph sentou-se na cama e começou a pensar sobre o sonho que tivera nesta noite, era o mais “sinistro” dos últimos meses, sonhou que era um canivete e estava rasgando a jugular de uma garotinha, porém não conseguia se lembrar da aparência da menina, tudo muito rápido, o mais assustador era que no sonho ele gostava da sensação do ato, e aquilo lhe embrulhou o estômago no momento, mas logo passou a sensação de enjôo. Dirigiu-se para o banheiro e girou a torneira, um guincho horrível como o grito ardido de uma criança surgiu, o rapaz proferiu palavrões tão rápido que é quase impossível descrevê-los aqui, algo como “Putaquefilhomerdocaralhosta”, a torneira custou-se a fechar, parecia emperrada e à medida que a água passava pelos canos, o guincho aumentava cada vez mais até que finalmente depois de muita luta e desespero Noah conseguiu fechá-la, estava vermelho como nunca estivera antes, se algum dia precisou usar toda sua força (que não era muita), foi ali que começou!
Decidiu que iria chamar o sindico mais tarde e lhe mandar consertar a maldita torneira. O Sindico do prédio onde Joseph morava atualmente era um senhor gordo, não passava dos 30, calvo na testa e barba por fazer, a única expressão que possuía no rosto era a de um aviso como “Não encha o meu saco, pague o aluguel senão te surro!”
Joseph acabará de se vestir, tomara banho e acabou por escovar os dentes embaixo do chuveiro enquanto pensava no que iria dizer para Gurdon, o síndico. Desceu as escadas de madeira que rangiam a cada pisada, a parede em volta era branca com listras vermelhas e tinha sua pintura despedaçada e suja, “Uma hora esta merda vai desmoronar e eu vou junto” refletiu.
Parou em frente à porta do apartamento de Gurdon, mas desistiu, “melhor falar com aquele gordo inútil amanhã, o dia começou um saco e não estou querendo ouvir merda agora”, pensou ele, deu meia volta e saiu pela porta da frente do prédio.
Era incrível como o tempo havia mudado, pois em seu quarto o clima parecia quente, mas agora, 30 minutos depois o céu estava nublado e um vento frio lhe soprava o pescoço, era de se admirar, plena primavera em Saint Lunes e o céu em depressão.
O rapaz não se agasalhara, mas recusou-se a voltar, pois agora olhando para trás avistava o sindico gordo na frente do prédio fumando um cigarro, o jovem decidiu seguir em frente e relaxar passeando pelo parque no lado leste da cidade.
O parque de Saint Lunes era enorme e geralmente encontrava-se vazio, poucas pessoas gostavam de aproveitar a beleza oferecida por ele, possuía um centro todo acidentado com alguns banquinhos de madeira e era rodeado por árvores antigas, que projetavam um tom esverdeado ao chão de concreto quando recebiam a luz do Sol em suas folhas, infelizmente não se encontrava assim hoje, os raios do sol mal conseguiam atravessar as espessas nuvens que se amontoavam umas nas outras no céu. Joseph parou e observou a grande floresta que se estendia atrás do parque, depois de algum tempo, decidiu sentar-se e foi nesse momento que ouviu o mesmo “guincho” que minutos atrás ouvira em seu banheiro, achou que era um “reflexo” de sua memória, porém o guincho cessou e em seguida ouviu-se pedidos de socorro atrás de si, virou-se num movimento rápido e avistou uma menina que usava um chapéu grande e marrom com abas curtas, pele branca e sem vida, trajava um pijama vermelho, não possuía olhos, dos buracos onde seus globos oculares deveriam estar, derramavam-se um liquido negro. Noah a reconheceu, era a menina do seu sonho, ele estava imóvel, a imagem que via era repugnante, dos buracos nos olhos da “garotinha” surgiram braços de repente, o estomago dele revirou, olhou para o chão e vomitou. O jovem médico que na faculdade já dissecara cadáveres sem hesitar, agora estava enojado com o que acabara de presenciar, pois não conseguia voltar os olhos para a criatura, remoia suas memórias mais assustadoras, mas nada se comparava com aquilo, nada, nem mesmo quando ano passado, presenciara um paciente do Hospício Reich arrancar a própria genitália e come-la.
Todo esse pensamento não durou muito, pois agora sentia a garganta queimar e não era possível respirar, entrará em desespero, de repente acordou e viu que possuía os pés amarrados em um lençol que ia até o teto do quarto, estava pendurado de ponta cabeça e abaixo de si estava sua cama toda suja de sangue. Acordou novamente e agora não possuía braços nem pernas, se debatia e gritava por ajuda, finalmente acordou, agora pela ultima vez e ao abrir os olhos enxergou um homem todo vestido de branco que o olhava perplexo, curioso e admirado que logo que percebeu que acordará, saudou-o:
